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No artigo O impacto da Internet das Coisas (IoT) na medicina, discutimos uma gama de novas possibilidades que surgem ao se conectar objetos à internet. Nesse contexto as tecnologias vestíveis (também conhecidas como wearables) são um campo em franca expansão que já trazem grandes mudanças, direta ou indiretamente, no dia a dia dos médicos.

O conceito de tecnologias vestíveis parte do conceito da interconectividade, base da internet das coisas, aplicado a dispositivos que podem ser vestidos ou usados como acessórios.

Com a ajuda de microchips cada vez menores e mais sensíveis, esses gadgets permitem que modernos e pequenos sensores fiquem em contato com nosso corpo, na forma de roupas e acessórios, e possam se conectar com outros aparelhos ou à internet. Os exemplos variam desde relógios, colares, camisas até roupas inteligentes.

asian young woman wearing sportswear and operating a smartwatch

Tecnologias vestíveis incorporam gadgets como anexos do corpo

Por isso, a ideia das tecnologias vestíveis reconfigura a noção do do homem-máquina. Mas, diferentemente dos personagens comuns nos filmes de ficção, essa entidade meio humana e meio robô é substituída pela simples incorporação de dispositivos tecnológicos usados junto ao corpo. Esses acessórios desempenham diversas funções de monitoramento, além de auxiliarem nas necessidades do dia a dia.

Desta forma, tarefas das mais banais, como medir os batimentos cardíacos, até as mais complexas, como controlar a acidez do suor e avaliar a concentração de ácido lático no organismo para potencializar os resultados de atletas de alto desempenho passam a ser feitas de forma permanente e automatizada.

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wear

Origem das tecnologias vestíveis começa bem antes dos artefatos digitais

A primeira aplicação das tecnologias vestíveis surge no século XIII, quando os óculos foram inventados. Assim, a simples possibilidade de ter no rosto lentes de correção para problemas de vista causou um dos maiores avanços sociais e econômicos, permitindo que pessoas com déficits ou deficiências visuais pudessem ler, fazer contas e enxergar com detalhes mesmo com o avanço da idade. Mais tarde, já no no século XVI. os primeiros relógios portáteis foram criados e amplamente adotados .

Esse salto de desenvolvimento ganhou novos ares com a invenção das tecnologias sem fio. Em 2002, era lançado o fone de ouvido Bluetooth, que possibilitava ouvir música sem a necessidade de uma conexão física entre os dispositivos.

À medida que a Internet das coisas avança, a própria noção de uma linha divisória clara entre a realidade e a realidade virtual torna-se confusa.  Às vezes de formas criativas.

Geoff Mulgan

Entre 2006 e 2013, nos centros de pesquisa do Google, inicia-se o processo de desenvolvimento do Google Glass. Ele surge com a promessa de funcionar como uma interface entre usuário e bancos de dados digitais de forma orgânica e intuitiva. Apesar do alto potencial da novidade diante do mercado global, em especial do setor médico, com possíveis usos em cirurgias e na melhoria da relação médico-paciente, o gadget teve suas funcionalidades limitadas por questões de privacidade e usabilidade.

Em 2014, somos apresentados ao Apple Watch. A intenção era lançar no mercado mais que um relógio com interface de interação com o IPhone. O dispositivo chegou com sensores capazes de medir batimentos cardíacos, distâncias percorridas e a prática de exercícios físicos. Era o início de uma nova era de monitoramento de saúde permanente e em tempo real por meio das tecnologias vestíveis.

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young man taking a break fitness concept in the city

Apple Watch: motor de uma pesquisa sem precedentes no Mundo

Desde então, a indústria, ano a ano, a indústria das tecnologias vestíveis segue inovando e explorando novas possibilidades em um campo em que apenas começamos a engatinhar. Isso, claro, causa cada vez mais impactos e benefícios na sociedades, especialmente com relação aos cuidados com a saúde.

Como exemplo, temos o levantamento Apple Heart Study (AHS), patrocinado pela gigante Apple. A intenção era avaliar se o aplicativo Apple Heart Study era eficaz na coleta de dados no Apple Watch para identificar ritmos cardíacos irregulares, incluindo aqueles potencialmente graves, como fibrilação atrial. Para o estudo, foram usados dados de mais de 400 mil pessoas, que se candidataram de forma espontânea e se autodeclararam saudáveis e sem problemas cardíacos.

O estudo, conduzido pela Universidade de Stanford, foi, na verdade, uma grande revolução: uma análise global quase meio milhão de pessoas em tempo real, com resultado imediato. E o resultado não poderia ter sido mais animador. Os pesquisadores concluíram que o app, em conjunto com as informações coletadas pelo Apple Watch, conseguiu detectar a ocorrência de irregularidades no ritmo cardíaco dos participantes que desconheciam o problema sem que fosse necessária uma consulta médica.

part of an electrocardiogram printed in paper

Assim, eles recebiam uma notificação de alerta avisando da necessidade de avaliação por um cardiologista e já chegavam no consultório com dados precisos sobre o problema. Do total de avaliados, 0,5%, o equivalente a cerca de 2 mil pessoas, foram aconselhadas a procurar ajuda por conta das alterações detectadas pelo app.

“Como médicos, nós estamos sempre tentando achar caminho para oferecer aos pacientes informações de saúde que sejam relevantes para o cuidado individualizado”, explica o vice-presidente da divisão de saúde da Apple, o médico Sumbul Desai.

O estudo foi considerado sem precedentes até então e só foi possível por conta das tecnologias vestíveis e da popularização da Internet das Coisas (IoT). Mas obviamente há uma enorme interesse econômico por trás disso: a intenção de abocanhar uma parcela dos mais de US$ 3 trilhões gastos em saúde só nos EUA.

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tecnologias vestíveis

Só o fato de a Apple conseguir liberação do FDA para considerar o Apple Watch um sistema avançado de eletrocardiograma e reconhecer a sua habilidade de detectar e notificar um ritmo cardíaco irregular é no mínimo algo disruptivo.

Por conta do aval do órgão, a Apple passa a completar as etapas dos 6D descritas por Peter Diamandis, conforme discutimos no artigo Como entender o ciclo das tecnologias exponenciais.

As possibilidades ilimitadas dos wearables

Para a Euromonitor, empresa que realiza pesquisas no setor de tecnologias vestíveis, os wearables se tornarão os produtos mais consumidos no Mundo depois dos smartphones.

Ao incluir um equipamento de uso exclusivamente médico até então em um acessório comum como um relógio (desmaterialização), a Apple iniciou o processo de consolidação do Apple Watch como um divisor de águas no ramo das tecnologias vestíveis. Assim, a empresa concedeu acesso a um automonitoramento de saúde preciso e eficaz a qualquer um que tenha o gadget (democratização) e que possua uma conta na Apple Store para download gratuito do aplicativo (desmonetarização).

Quando falamos sobre a Internet das Coisas, não é apenas colocar tags de Identificação por radiofrequência em algo idiota, então nós, pessoas inteligentes, sabemos onde essa coisa estúpida está. Trata-se de incorporar inteligência para que as coisas fiquem mais inteligentes e façam mais do que se propuseram fazer.

Nicholas Negroponte

Vale salientar que o aplicativo Apple Hart Study é descrito com o alerta de que não tem o propósito de substituir métodos tradicionais de diagnóstico e tratamento. Mas quanto tempo vai levar para que isso realmente aconteça?

É importante lembrar, porém, que liberar o uso não significa aprovar o uso. No sistema usado nos EUA, a aprovação é reservada apenas para produtos Classe III de alto risco e alto benefício, como o marcapasso implantável, por exemplo. No caso do Apple Watch, a classificação do dispositivo é de Classe II, descrito como produto de baixo risco e considerado similar a um produto que  já tenha sido previamente regulamentado pelo Food and Drug Administration, o órgão máximo de saúde pública do país.

tecnologias vestíveis

Apesar dos inquestionáveis benefícios dos gadgets de monitoramento de saúde, há uma grande preocupação em relação à enorme quantidade de alarmes falsos e alertas para problemas que não existem. Isso pode levar a comportamentos de hipervigilância, preocupações desnecessárias e sobrecarga do sistema de saúde sem motivos reais. Este fator leva a outra questão: clínicas e hospitais já estão lotados e operando acima de sua capacidade com pacientes realmente doentes, que podem sofrer consequências nos seus diagnósticos e tratamentos.

Tecnologias vestíveis na medicina

Em pesquisa recente realizada pela Beecham Research e o Grupo Wearable Technologies, o novo cenário para as tecnologias vestíveis apresenta um rápido desenvolvimento. O estudo foi baseado em sete pilares: encantamento, comunicação, estilo de Vida, esporte/vida saudável, bem-estar, medicina, segurança e operação de negócios. 

O estudo é bem abrangente em relação as possíveis aplicações, funções e produtos para cada tipo de categoria que já está em atividade ou surgirá em um futuro próximo.

tecnologias vestíveis

Falando especificamente no setor médico, algumas aplicações possíveis são o monitoramento e responsividade de sinais vitais para pacientes a distância, implantes “in vivo” para o controle e gerenciamento de doenças crônicas (como o diabetes), reconhecimento de atividade cerebral e movimento ocular para melhora dos sentidos como a visão e audição, controle de equipamentos e próteses exoesqueléticas para amputados e até mesmo comunicação não-verbal entre pessoas e/ou máquinas.

Os wearables passam então a ser uma fonte de dados quase inesgotável e a funcionar como interface entre corpo e máquina. Em associação com outras tecnologias exponenciais como inteligência artificial, blockchain e Internet das Coisas, as tecnologias vestíveis ganham espaço absoluto de destaque na revolução da medicina como conhecemos hoje.

Equipamentos antes exclusivos para uso dentro de hospitais, como oxímetros, capnógrafos, eletrocardiógrafos e eletroencefalógrafos passam a ter versões domiciliares em aparelhos pequenos e portáteis. Se há poucos anos isso parecia uma narrativa de ficção, hoje já temos disponíveis faixas da cabeça para detecção de lesões cerebrais, pulseiras para monitorar a oxigenação do sangue, patches e tatuagens com sensores cutâneos para avaliação de sinais vitais e até mesmo lentes de contato para que medem o nível de açúcar no sangue.

Referências:

https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT03335800
https://www.theverge.com/2018/9/13/17855006/apple-watch-series-4-ekg-fda-approved-vs-cleared-meaning-safe

http://www.beechamresearch.com/article.aspx?id=20

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